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Aprendi que sou estranho desde a infância, brincando sozinho com meus bichinhos de plástico, imaginando sei lá o que e cultivando a imaginação. Que é possível ter 101 dálmatas imaginários sem ficar louco e certamente eles trariam o jornal para mim se eu pedisse (ou me importasse).

aprendi

Aprendi que Nescau com água não fica bom. E a única vez que preparei o café da manhã para alguém, acabei com a mão e coxa toda queimada com água quente. Talvez seja por isso que não gosto de café. Aprendi que sou metade bruxo, podendo ser efeito do que minha mãe fala, e a queimadura na mão revelava o que ia acontecer. E deu certo, uma mãozinha em forma de queimado: minha mãe estava grávida. Liguei os pontos só depois. Não tentei me queimar de novo. Bruxos de queimaduras não devem ser aceitos em Hogwarts.

Aprendi que mesmo abraçando uma árvore cortada, ela não pode mais ser salva. Que um “tudo bem” não significa o que parece e que lágrimas de alegria são mais preciosas. Aprendi como impor a própria vontade sobre os outros usando a força. Que existe um canto escuro abrigando alguma coisa, sendo nutrida e atiçada desde a primeira briga que vi. Impossível de se livrar, inconstante e que necessita de controle. Aprendi que os brotos não crescem longe da raiz, mas o pólen e as frutas podem ir além. Podem pelo menos tentar quando o vento certo aparecer.

Aprendi que as pessoas querem bons amigos, mas ignoram a necessidade da amizade ser recíproca. Que é impossível controlar a intensidade e a forma de se entregar para alguém. Que o cérebro gosta de brincar com amor e amizade. Que o coração dói, mesmo os médicos dizendo que não. Aprendi que me colocar pra baixo é o equivalente a um vírus silencioso, me corroendo aos poucos, sem que se perceba. Que é difícil interpretar sinais. Aprendi a me encarar no espelho e não ouvir as vozes dizendo que o reflexo precisa ser mudado. Aprendi que beijar faz com que uma sensação estranha percorra o corpo, iniciando uma rebelião de células gritando “queremos mais” assim que as bocas deixam de se tocar. Que dar as mãos causa um arrepio gostoso.

Aprendi a cozinhar. Aprendi que há uma luta interna que precisa ser vencida, como os jogos de videogame, enfrentando os chefões de preconceito instalados no hardware. Que a luta existe fora da cabeça também. Percebi que machuco quem mais gosta de mim. Que não existe justificativa para se sobrepor a alguém. Que tento chamar a atenção de quem está longe. Aprendi que funciono de um jeito todo errado, confuso. Às vezes tendo a sensação de não ter controle sobre o que faço. E isso é divertido. Que a fotografia, a música e a escrita me libertam de formas independentes, cada uma abrindo janelas diferentes. Que é impossível viver sem elas. Que o tapa e o afago são inevitáveis quando expõe o que se faz. Aprendi que a internet produz sensações tão intensas quanto as “reais”. É possível encontrar gente real no meio das vidas perfeitas, se identificar com elas e trocar figurinhas. Que a vida é muito curta pra nutrir uma única opinião. Que a leitura, mesmo solitária, pode unir pessoas. Que esperar muito por alguma coisa faz com que ela não aconteça.

Aprendi a gostar do que faço e tento respeitar o tempo exigido por cada atividade. Que devo insistir quando a preguiça vier me seduzir. Que a insegurança e os medos sempre se farão presentes, mas sou eu que escolho o quão intensa será a forma como eles irão me afetar. Aprendi que crescer devagar é o melhor, dando tempo para as estruturas se solidificarem. Que não sei ganhar dinheiro e que minhas ideias são maiores do que o espaço que tenho para executá-las. Que preciso prestar mais atenção no que aprender, no que me focar e onde gastar o meu tempo. Que sou intenso demais. Que produzir é a única e melhor coisa a se fazer para chegar aonde quero. Aprendi que sou mais produtivo à noite. Que gatos são melhores que cachorros.

Aprendi que a vida sempre tem algo pra ensinar e é ela que decide como você vai aprender.

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