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Quando for entrar, tire os sapatos. Deixe a sujeira do lado de fora e só traga os caminhos pelos quais seus pés passaram. Me mostre as experiências guardadas na mochila. Aos poucos, me deixe expor as cicatrizes talhadas no peito. Ria comigo transformando as sombras em ecos insignificantes.

Sente próximo à mesa, aceite o ritmo da música e me ajude a criar um mosaico com os fragmentos de quem eu costumava ser. Me ajude a trazer calor para um cômodo que só se conhecia gelado. A plantar uma nova semente em um terreno que sofre a cada chuva que passa. A esperar pelo cantar dos pássaros ao invés do grito desesperado do vento forte na janela.

Deite no meu peito, explore o céu estrelado ao som de um coração cansado. Me permita desvendar seus segredos, mergulhar em seus sorrisos e ouvir os sussurros de suas intenções. Entenda minhas angústias, me abrace apertado e sinta o mundo parado enquanto o que há além de nós dois some numa perfeita ilusão.

Por favor, só peço que, quando entrar, não faça uma bagunça difícil de arrumar.

Imagem: David DeHetre

3 comentários em “Por favor”

  1. Oi, Luan!

    Acho essa ideia de pedir “favores” a quem tá entrando na nossa vida muito bonita. Gostei das coisas que tu pediu e de como sutilmente tu deixa entrever a fragilidade do eu-lírico (“Entenda minhas angústias, me abrace apertado” / “Aos poucos, me deixe expor as cicatrizes talhadas no peito”), Mas, se tu me permite a intromissão, eu tenho sugestões a dar.

    Sei que a ideia do texto é uma sucessão de verbos no imperativo – afinal, tem alguém pedindo coisas ao outro -, só acho que tu deveria inserir mais alguns elementos pra alternar com os imperativos. Tu fizesse isso com ideias de lugar (“Sente próximo à mesa”) e de tempo (“Quando for entrar”/”Aos poucos”), mas acho que ainda não foi o suficiente. Se tu, esparsamente, inserisse mais desses elementos e falasse um pouco sobre ti (no indicativo/subjuntivo, no presente ou pretérito), acho que atenuaria a ideia de exigência que todos esses verbos no imperativo acabam dando. Não que tenha algo de errado com essa ideia, mas acho que ela tira delicadeza/sutileza do teu texto e talvez essa não tenha sido tua intenção.

    Tenho um exemplo pra de dar: um texto de 2010 de uma menina pernambucana chamada Eneline. Li há cinco anos esse continho e nunca mais esqueci, releio sempre: http://mundocaduco.blogspot.com.br/2010/06/receita-do-bolo.html Repara como os outros modos verbais e informações que ela adiciona intercalam bem com os imperativos. Imperativo e delicadíssimo.

    Espero ter contribuído. Continue com o bom trabalho!
    Um abraço,
    Eric.

    1. Eric, muito obrigado pela sugestão! A ideia do texto era mesmo a urgência, a necessidade de pedir para não ser machucado mais uma vez. Talvez por isso o imperativo tenha se sobressaído. Quem sabe fica mais sutil em uma próxima revisão. <3

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